Festa da Pinha

Festa da Pinha
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No dia seguinte à Festa dos Maios é o dia maior da aldeia de Estoi, é
o dia da “Festa da Pinha”, uma festa que se enquadra dentro da
mesma tradição da festa da Primavera e do renascer da natureza,
que envolve e arrebata a população da aldeia em peso e que leva ao
rubro milhares de visitantes que ocorrem ao seu cortejo final.
Esta festa foi criada pelos almocreves de Estoi, no âmbito dos
festejos em honra da Senhora do Pé da Cruz, Padroeira da sua
Confraria e terá tido origem no séc. XVII, precisamente na época da
construção em Estoi da Igreja do mesmo nome e da criação da
confraria a ela associada.

Diz a lenda que pernoitando na serra um pequeno grupo de
almocreves acordaram a meio da noite cercados por uma enorme
alcateia de lobos, como nunca se houvera visto. Aflitos e sem
grandes meios de defesa, organizaram-se o melhor que puderam,

invocaram a protecção à sua Padroeira, a Nossa Senhora do Pé da
Cruz e aguerridamente atiraram-se aos lobos. Milagrosamente, em
resposta à sua reacção e apesar da enorme diferença numérica, os
lobos fugiram. Em euforia os almocreves regressaram sãos e salvos a
Estoi dizendo que só o milagre da Nossa Senhora os tinha salvo.
Seguidos por toda a população dirigiram-se reconhecidos à Igreja da
Padroeira, para lhe agradecer e prometeram que daí para frente e
para todo o sempre e para que o milagre não fosse esquecido, iriam
anualmente concretizar uma grande romaria em homenagem à
Virgem.

Coincidindo no tempo a comemoração do dia da Senhora do Pé da
Cruz, ou dia da Vera Cruz e também com a Festa de Maio já referida
noutro capítulo, esta festa que hoje tem a designação de Festa da
Pinha é uma romaria ao género das romarias espanholas, um desfile
que envolve 100 cavaleiros e 30 carroças engalanados com flores,
secundados hoje em dia por 30 tractores floridos também,
transbordando de vida e juventude dos romeiros, nos seus trajes
típicos de algarvios. Num cortejo com 1km de extensão, cumprindo
uma tradição multissecular, a romaria sai de manhã da aldeia de
Estoi e perfaz um passeio de 15 km, atravessando caminhos em
terra, estradas concelhias e nacionais, para chegar ao Pinhal de Ludo,
na freguesia de Almancil, onde se concretiza um almoço campal,
onde os grelhados na brasa e o vinho são reis, uma grande
confraternização, cheia de música e alegria. A tradição antiga
mandava que os romeiros, depois do almoço, realizassem um jogo
intitulado das abarcas, através do qual mediam forças, mas hoje em
dia, o baile acaba por ter mais adeptos. Ao fim da tarde, faz-se horas
do regresso e o cortejo dos romeiros torna a constituir-se. A meio do
caminho, à entrada da aldeia de Santa Bárbara de Nexe, tem uma
banda filarmónica à sua espera e para cumprir a tradição,
acompanhado da música, sobe à aldeia para saudar o povo dessa
freguesia. Já é noite serrada quando o cortejo chega ao Coiro da
Burra, a pequena povoação localizada junto à Ribeira do Rio Seco,
que antecede a aldeia de Estoi. Nessa altura, os romeiros agarram e
acendem os mil archotes que irão iluminá-los no desfile até à Igreja
da Padroeira e assim brandindo-os no ar, enquadrados pela música
da banda filarmónica e o colorido do fogo-de-artifício e elevando um
grito rouco de “Viva a Pinha”, respondido em uníssono pela multidão,
que os aguarda nas ruas e largos da aldeia, chegam à Igreja do Pé da
Cruz, onde com o resto dos archotes, alecrim e pinhas trazidos do
pinhal do Ludo, acendem uma fogueira monumental em honra da
Nossa Senhora.
Pela noite fora, o arraial irá prosseguir no Largo Ossónoba, centro
histórico da aldeia, por entre um misto de cheiros do alecrim ardido
na fogueira e dos cavalos dos romeiros e a alegria de uma jornada
em que se cumpriu a Festa da Vida.

A tradição da escolha do pinhal de Ludo para concretização do almoço
campal virá do primeiro quartel do séc. XIX, época, em que José
Coelho de Carvalho, se radicou em Faro, se tornou o maior
empreendedor da região e Morgado de Ludo. Com o seu
empreendedorismo, este foi o homem que retomou a exportação dos
produtos da região, parada havia séculos, tendo sido mesmo, o
primeiro exportador da nossa cortiça. Trabalhava em conjunto com os
almocreves de Estoi, que lhe forneciam as mercadorias necessárias
ao seu negócio, sendo em Ludo, na data da Festa da Confraria dos
Almocreves, que concretizava o acerto de contas com os mesmos,
nomeadamente os pagamentos inerentes às compras concretizadas.
Na posse dos seus rendimentos não admira que os almocreves
concretizassem uma festa, comendo e bebendo em profusão e
entrando exuberantes de alegria no seu regresso a casa em Estoi e
que fossem dar graças à sua Padroeira, pela felicidade nos negócios
concretizados e pela protecção que havia dado ao seu trabalho,
defendendo-os dos ataques dos lobos e das quadrilhas de ladrões,
que habitualmente ocorriam na serra.

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